terça-feira, 12 de agosto de 2008

CONTOS DA CORTE

Atabaques mudos. Todos atônitos observam a mulher calmamente bebendo no meio do salão. Vestido vermelho, taça de champanhe na mão esquerda, mão direita na cintura. A mãe de santo recomeça a entoar o ponto mas é novamente interrompida:
- Pode parar! Se você quer ir embora, pode ir. Eu fico, e me arranje um cigarro que quero fumar!
- Dona Maria Padilha. Diz a mãe de santo gentilmente, mas deixando transparecer sua preocupação com aquela situação inusitada. - A senhorita precisa ir embora, o dia já amanheceu e Danielle precisa voltar para casa...
- Eu sei. Aliás é por ela justamente que fico. Olha isto aqui (a entidade aponta para o olho de seu cavalo): ROXO! Toda vez que desço encontro Danielle com um dos olhos roxos! Como alguém pode levar a sério uma Pomba Gira com a cara deste jeito?! Para mim chega, se Danielle não resolve isto sozinha, eu resolvo por ela, e me dê o cigarro que lhe pedi!
-Calma Dona Maria, calma. Diz a mãe de santo enquanto lhe acende um cigarro. - Eu já conversei bastante com a menina, sugeri até que denunciasse o Layrton na delegacia da mulher, mas você sabe como é, ela tem medo de perde-lo...
- Medo de perder aquele encosto? E de encosto eu entendo! Ela trabalha como uma mula para sustentar o vagabundo e a única porra que ganha é porrada! E olha que Danielle adora levar uns sopapos, sempre gostou, mas na cama, ela goza quando ganha uns tapas bem dados na cara enquanto cavalga uma bela pica. Mas este é o único lugar onde o encostado não lhe bate, aliás não faz nada, só ronca e baba, não deixando a coitada dormir.
A mãe de santo está sem reação. Dona Aracy é de Ogum, mas nem a valentia e poder de comando do santo são suficientes para resolver esta demanda:
-Tudo bem Dona Maria. Se quer ficar, fique. Mas me diga: o que a senhorita pretende fazer?
- Ir para o Tietê.
- Tietê? Fazer o quê? Nadar naquele rio sujo?
- Não Dona Aracy. Vou para a rodoviária do Tietê comprar uma passagem para Taubaté.
- Primeiro a senhorita diz que fica e agora comunica que vai embora para Taubaté incorporada na menina. Isto é seqüestro!
- Não é não. Se há consentimento da vítima não é seqüestro. ( solta uma estridente gargalhada). Como disse, só quero ajudar a menina. Traga-me a bolsa de Danielle por favor.
Dona Aracy busca a bolsa e a entrega para Danielle, quer dizer, para Maria Padilha, que de lá retira um envelope.
- Abra e leia por favor. Diz Maria Padilha entregando o envelope a Dona Aracy. Trata-se de uma carta:
"EDITORA T
Avenida Tiradentes 69. Centro. Taubaté. CEP 08400-000
Taubaté, 2 de fevereiro de 2007
À
Senhorita Danielle Arruda dos Santos,
Informamos que recebemos uma série de contos eróticos de sua autoria pelos quais nos interessamos muito e pretendemos publicar nas próximas edições da revista LESBIANAS.
Gostaríamos também de saber se há interesse de sua parte em colabora regularmente como escritora em outras publicações eróticas desta editora.
Atenciosamente
José Lins Petra
Editor Chefe"

A mãe de santo relê a carta, uma, duas, três vezes e a cada leitura novas rugas de interrogação se formam em seu rosto.
- É isto mesmo Dona Aracy. Danielle é uma excelente escritora, de putarias, é verdade, mas isto não diminui seu mérito. À algum tempo que para consolá-la da brutalidade, do ronco e do pau mole do marido, lhe busco durante as madrugadas e conto algumas singelas passagens da minha vida como cortesã libertina pelas cortes europeias. No começo ela tentava disfarçar o calor que estas aulas de história lhe produziam , mas em pouco tempo perdeu a vergonha (ou recuperou a sem vergonhice que tinha perdido) e passou a se masturbar e gozar escandalosamente, e isto na cama ao lado do imbecil do Layrton que nem assim parava de roncar e babar. Um dia ela resolveu escrever uma de minhas histórias e enquanto lia, era eu que me masturbava e gozava como se estivesse numa orgia de Gamiani. A safada é divina com as palavras e transformou minhas putarias em verdadeira obras de arte. Convence-la a mandar os escritos não foi muito difícil e a resposta da editora, como a senhora pôde verificar, chegou em menos de um mês.
Após estas palavras Maria Padilha silencia e volta a beber calmamente sua champanhe enquanto fuma outro cigarro. Dona Aracy, ainda com a carta na mão, observa muda a bela mulher com seu vestido vermelho. Esta cena dura exatos três minutos. A mãe de santo então se mexe. Caminha até a garrafa de champanhe que se encontrava bem no meio do ponto riscado da entidade, completa a taça de Maria Padilha que lhe agradece com um sorriso faceiro. No próprio gargalo bebe um generoso e longo gole quase secando a garrafa, abraça a mulher pela cintura e pergunta:
- Aceita uma carona, senhorita?

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

FILOSOFANDO NA JANELA

Janela do quarto escancarada. Duas da tarde, céu azul pelado, desanuviado. Apoiados no batente, o casal trepa escandalosamente. Na rua pessoas passam fingindo não vê-los nem escutá-los, disfarçados em suas pesadas roupas de trabalho.
A janela é uma linha ambígua: separa pelados de vestidos excitando-os mutuamente

PITANGAS MADURAS

Pitangas maduras. Cheiro magenta num pote de vidro sobre o criado mudo ao lado da cama.
Pitangas maduras. Todo sentido se toca nos lábios enquanto o gosto desnuda e se cobre de carne, de pelos, suor, secreções e línguas.
Pitangas maduras. Espremidas para extrair suco. Avermelhando bocas, peitos, costas, cochas e bundas.
Pitangas maduras. Escandalosamente maduras.

sábado, 9 de agosto de 2008

ODISSÉIA

Protetor auricular nos ouvidos e uma muralha intransponível se fez. Pelo menos assim crê o Herói. Estufa o peito, olha-se no espelho do banheiro e vê, mais uma vez, Ulisses amarrado ao mastro da embarcação enfrentando as sereias. Caminha até a sala, senta-se no sofá e fica olhando para a porta. Ela chegará em breve, mas, desta vez, não conseguirá enfeitiçá-lo com sua voz. Não enfiará pelos seus ouvidos as ondas sonoras que saem da sua boca e sempre afogam sua racionalidade, deixando ativos no cérebro apenas os neurotransmissores responsáveis pelo funcionamento do seu pau.

“- Uma imigrante grega. Uma sereia do mediterrâneo que aportou nestes lados da América do Sul”. Pensa o Herói. Por que uma sereia escolheu imigrar para São Paulo e não para Santos, Rio de Janeiro, Paranaguá ou qualquer outro lugar próximo ao mar, ele não sabe explicar, mas que se trata de uma sereia disto está convicto.

A porta se abre, seu coração dispara e concomitantemente seu pau começa a inchar dentro das calças. Respira fundo, levanta e, com as mãos para trás como um soldado, se põe em posição de sentido no meio da sala.

Ela entra linda (como sempre): cabelos pretos curtos, lábios carnudos, um pequeno piercing no nariz, usa um vestido justo com estampa e corte orientais, um deliberado decote deixa suas costas negras abusarem de tudo ao seu redor, carrega uma pequena bolsa vermelha. Miúda, possui o rosto e o corpo dignos de uma ninfa: graciosamente lascivos.

Sorrindo ela observa o sujeito a sua frente, rijo como um obelisco com aqueles dois ridículos pontos amarelos de borracha enfiados nos ouvidos. Passa a língua no lábio inferior até senti-lo úmido, seus olhos negros percorrem o corpo do Herói como se fossem garras a lhe rasgarem as roupas. Não emite uma palavra. Abre a bolsa e retira as únicas coisas que nela carregava: Pitangas. Sete frutinhas bem maduras e vermelhas como sangue. Espreme-as com a mão esquerda, o sumo escorre pelo seu braço e um cheiro doce começa a se espalhar pela sala.

“- PUTA FEITICEIRA!”. Grita o Herói enquanto tampa o nariz. Mas já é tarde. O cheiro das pitangas misturado com o cheiro dela já havia se enfiado pelas narinas embriagando seu cérebro. Adeus Ulisses! No Mediterrâneo as sereias te deixaram passar, mas aqui não. Elas permitiram sua viagem, esta é a verdade, nem cantar cantaram, simplesmente gargalharam enquanto você passava amarrado ao mastro com os ouvidos cheios de cera. Elas riram da sua ingenuidade, da sua inocência incapaz de perceber que o encanto das sereias não estava somente no canto. Adeus Ulisses, no Atlântico abaixo dos trópicos todo heroísmo se carnavaliza e seu mito dançou. Adeus Ulisses e que venha Priápo com sua pica eternamente dura! E se jogue nesta mulher, sereia, ninfa, se arremesse Priápo neste penhasco de carne, misture todos os mitos, deseje o sol, derreta-se na luz e goze sentindo a brisa do vento que arrepiou o corpo de Ícaro durante a queda.


terça-feira, 5 de agosto de 2008

ALIANÇA

Meu dedo indicador da mão direita. Gosto muito dele. Decidido e vanguardista. Todas as vezes que Te toco é ele que chega primeiro até Tua pele
Encosta
Aperta
Desliza
Penetra
Meu dedo indicador da mão direita. Entram pelas suas terminações todas as sensações produzidas durante o contato com o Teu corpo que sobe pelo meu sistema nervoso e é decodificado pelo meu cérebro produzindo sorrisos, aceleração dos batimentos cardíacos, suores, enrijecimento muscular, gritos, gemidos, sussurros, gozos animalescamente humanos.
Meu dedo indicador da mão direita. É onde tenho e me amarro a Você num circulo de ouro branco que brilha no corpo do meu dedo indicador da mão direita.

VADIAÇÕES SOBRE UM MESMO TEMA

O mesmo desenho. todos os dias linhas e cores se esparramando pelas folhas e, no final, sempre a mesma forma. Aqui a fase atual do artista: toda angustia, todo desejo, toda vontade e sentido contidos em seu trabalho.
Em outro momento o artista acreditava que o fundamental era conquistar novas formas. O belo estava no ato da conquista e se bastava na conquista. Mas acabou este momento. Não o nega, não o enaltece saudosamente, nem o encara como parte de uma espiral cronológica capaz de explicar o caminho de sua arte. Guarda deste momento o bom e o ruim da experiência vivida e os deixa correndo livremente pela cabeça, mas longe dos pés para não congelar o presente.
E o presente é este mesmo desenho diariamente executado, e o belo se faz em varias ações sobre este mesmo tema: clarear, escurecer, inverter, reorganizar, alongar, diminuir, remontar... tudo é válido para gozar o belo e o belo se faz no mesmo. No mesmo desenho desenhado, no mesmo desenho nascendo, no mesmo desenho que se anima, ganha vida e não morre (não se repete), no mesmo desenho sendo um novo desenho, no mesmo desenho agora, todos os dias.

O VIDRO

A janela é de vidro. Através dela vejo árvores. Trabalho em um parque. Mas o importante é ver o vidro que me separa das árvores. Se saio correndo da mesa de escritório onde estou em direção a goiabeira que começa a florir vou bater no vidro e posso me machucar, ou pior, danificar o vidro. O prédio foi projetado por um importante arquiteto, nada nele pode ser alterado, ele faz parte de um complexo de construções arquitetônicas dedicadas às artes e a cultura dentro de um parque projetado por um importante paisagista. Por isto o vidro é muito importante, melhor esquecer este meu plano de sair correndo em direção a goiabeira que começa a florir.Escuto um barulho: um pássaro que voava pelo parque e que não sabe nada de arquitetura, paisagismo e muito menos de vidros se choca contra este patrimônio transparente e cai no chão. Vou andando até a janela e vejo através do vidro o pássaro caído próximo à goiabeira. Alguns gatos surgem, pegam o pássaro desmaiado no chão e o devoram, depois se deitam na sombra da goiabeira e ficam olhando para o vidro. Felinos espertos: moram perto do vidro que segundo a sua versão da história foi projetado para facilitar a obtenção de comida e liberar sua espécie da difícil e muitas vezes infrutífera arte da caça. Volto para minha mesa, olho para o relógio: 15 minutos para terminar o expediente. Finjo trabalhar organizando coisas que já estão organizadas e que não tem importância nenhuma para mim. Tento fazer os minutos passarem rápido, não quero mais ficar onde estou.